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L’Oréal vai abrir centro de pesquisa no Rio

Gigante francesa quer usar a diversidade étnica do país como laboratório. Investimentos somam R$ 400 milhões até 2014

Danielle Nogueira

Crioula de olho azul, loura com cabelo bombril, índia com sotaque do Sul. A diversidade étnica brasileira que inspirou os Paralamas do Sucesso no hit “Lourinha Brasil” também é fonte de inspiração no mundo dos negócios. Diante da miscigenação do povo brasileiro, apontada como única no mundo, a gigante francesa de cosméticos L’Oréal quer fazer do país um grande tubo de ensaio para desenvolver e testar novos produtos que poderão ser vendidos não apenas aqui, mas também em outros mercados. Para isso, pretende abrir um novo centro de pesquisa no Rio, o sexto da empresa no mundo, em 2015.

Com investimento estimado em R$ 120 milhões — de um total de R$ 400 milhões a serem aplicados entre 2012 e 2014 —, o centro reforça a importância que o Brasil vem ganhando na estratégia global da empresa. O país, que até julho deste ano era considerado parte da América Latina no planejamento da companhia, foi “desmembrado” e passou a ter status de região independente. Algo que não acontece nem com a China, mantida no Sudeste Asiático na nova geografia de negócios da L’Oréal, que dividiu o planeta em oito regiões. Antes da revisão global, eram cinco áreas.

País tem oito diferentes tipos de cabelo

A mistura de raças no Brasil é tamanha que é possível encontrar no país os oito tipos de cabelo catalogados pela empresa francesa, do mais liso (que representa 18% da população feminina brasileira) ao mais crespo (2%). Esta diversidade, aliada à vaidade da brasileira, faz do Brasil o maior mercado de produtos para cabelo no planeta. Somos também o primeiro em desodorantes, o segundo em unhas e o segundo em cuidados com a pele — incluindo cremes e protetor solar. Com tantas posições de liderança, a indústria de beleza nacional vem se expandindo. Ano passado, movimentou R$ 36 bilhões, fatia que correspondeu a 6,6% do total movimentado pela indústria global.

— Queremos não apenas crescer no Brasil, mas também usar o Brasil como fonte de inovação e inspiração para nós mundialmente. Por isso, decidimos criar esse novo centro de pesquisa — disse Jean-Paul Agon, presidente mundial da L’Oréal, que esteve no Rio há duas semanas.

Meta é dobrar base de clientes em 15 anos

O centro deve ter 160 pesquisadores, dobro do atual número de profissionais que trabalham em pesquisa no país. Hoje, esse grupo atua em um laboratório na fábrica que a L’Oréal mantém no Rio, no Jardim América — a companhia também tem uma fábrica em São Paulo. Entre os produtos desenvolvidos por eles que serão lançados internacionalmente está a série Expert Absolut Control, que usa manteiga de murumuru, fruto típico da Amazônia. São produtos como este que Agon quer ver cada vez mais em vitrines mundo afora.

— Estamos dobrando os investimentos no Brasil até 2014. Dos R$ 400 milhões previstos, metade será para novos projetos e a outra metade para projetos já em andamento. E também estamos expandindo nossa equipe — disse Didier Tisserand, presidente da L’Oréal Brasil.

Nos últimos anos, a L’Oréal também abriu centros de pesquisa em outros países emergentes. China e Índia já têm os seus. Os demais ficam na França, nos Estados Unidos e no Japão. Essa mudança de foco para “os novos mercados” vem na esteira do crescimento econômico dessas nações, que permitiu a ascensão social de uma nova classe média, com enorme disposição para o consumo. E atende à meta da L’Oréal de dobrar para dois bilhões sua base de clientes nos próximos dez a 15 anos.

— É a grande mudança que estamos vivenciando agora, em termos de desenvolvimento econômico. Uma estimativa feita pelo Boston Consulting Group mostra que, em 2010, a classe média era forma por 1 bilhão de pessoas no mundo. Em 2020, serão 2,7 bilhões — afirma Agon.

O executivo acredita que o Brasil deve alcançar o quinto lugar no ranking de principais mercados para a L’Oréal “em breve”, desbancando o Reino Unido. O líder da lista são os Estados Unidos, seguidos por França, China e Alemanha. O Brasil está em sexto, respondendo por 4% do faturamento global da L’Oréal. No primeiro semestre, a receita internacional do grupo foi de € 11,7 bilhões, alta de 5,4% em relação a igual período de 2012. No Brasil, o ritmo de crescimento foi três vezes maior.

GOVERNO DO RIO ARCARÁ COM PARTE DO VALOR DO TERRENO

Liberação da área, na Ilha de Bom Jesus, é prevista para fim de outubro, com cinco meses de atraso

Danielle Nogueira

A rapidez com que o Brasil avança no consumo de produtos e serviços contrasta com a burocracia para abrir novos negócios. O memorando de entendimentos assinado em setembro de 2012 entre L’Oréal e o governo do Estado do Rio previa o início da construção do centro de pesquisa da empresa em maio deste ano e inauguração no fim de 2014. Mas a dificuldade de liberação do terreno, na Ilha de Bom Jesus, ao lado da Ilha do Fundão, quase fez a empresa desistir de tudo, segundo o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Júlio Bueno.

O centro de pesquisa da L’Oréal ficará no chamado Polo Verde, área contígua ao Parque Tecnológico da UFRJ, onde centros de pesquisa com infraestrutura ecologicamente correta vão se instalar. A L’Oréal foi a segunda empresa a acenar que iria para lá, a primeira foi a General Electric (GE). Os terrenos, hoje de posse do Exército, estão sendo comprados pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin) e revendidos para as empresas interessadas.

Além das dificuldades na obtenção das diversas licenças, o Exército exigiu uma reavaliação dos terrenos em junho passado, que elevou os valores dos lotes. A área onde ficará o centro da L’Oréal passou de R$ 17 milhões, numa primeira avaliação, para R$ 21 milhões. A empresa torceu o nariz, e o governo, para viabilizar o negócio, decidiu arcar com a diferença de R$ 4 milhões. Também vai prover toda a infraestrutura comum da ilha.

— O sistema burocrático brasileiro é no business (antinegócio) — diz Bueno.

Solucionadas as pendências, a Codin assinou na última segunda-feira documento por meio do qual o Exército se compromete a liberar o terreno no fim de outubro. A L’Oréal reconheceu que “houve um atraso decorrente da complexidade do projeto, que envolve diversos atores, como autoridades estaduais e Forças Armadas”, mas reafirmou sua intenção de crescer no país.

Aqui, a companhia pode colocar em prática o conhecimento adquirido ao longo de um século de existência. Foi no início do século XX que o jovem químico Eugène Schueller conseguiu com suas pesquisas científicas chegar a uma fórmula de tinta para coloração dos cabelos que não os agredisse. Batizado de Auréole, este conceito foi a primeira tentativa bem-sucedida de desenvolver uma tintura segura. Os produtos da sua empresa, que se chamava Societé Française de Teintures Inoffensives pour Cheveaux, mais tarde L’Oréal, passaram a ser vendidos para os salões de beleza mais sofisticados de Paris. No Brasil, os produtos para cabelo representam 65% das vendas da empresa.

Origem: O Globo, 5/10/2013

Primeiro “piscinão” da Praça da Bandeira será inaugurado no mês que vem

Reservatório para 18 mil litros será inaugurado no mês que vem

Luiz Ernesto Magalhães

A Praça da Bandeira ganhará já este ano um alívio no problema crônico de enchentes com as chuvas de verão. A prefeitura inaugura em novembro o primeiro dos cinco reservatórios (piscinões) para armazenar água de chuvas. A estrutura se encontra em fase de acabamentos: 85% das obras já terminaram. A medida é considerada um alívio, mas a solução definitiva só estará disponível no verão de 2014/2015, quando todas as obras ficarem prontas, já que houve atraso no cronograma original. O primeiro piscinão, que tem formato cilíndrico, tem capacidade para receber 18 milhões de litros de água e fica numa praça próxima à Rua do Matoso. A estrutura será subterrânea e captará o volume excedente que a rede de drenagem não for capaz de escoar. As comportas serão reguladas por bombas hidráulicas, operadas à distância por técnicos do Centro de Operações Rio.

— O projeto de drenagem tomou por base uma série histórica das maiores chuvas na região nos últimos anos. A nova rede funcionará em paralelo ao sistema atual, aumentando a capacidade de captação das chuvas da Praça da Bandeira — explicou o secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto.

As obras completas de combate a enchentes também se estendem à Tijuca e a Vila Isabel. Mas elas só serão concluídas no fim de 2014 e não até a Copa do Mundo, em junho, como planejava inicialmente a prefeitura. Ao todo, os cinco reservatórios terão capacidade para armazenar cerca de 260 milhões de litros d’água. Com o término das obras, as praças serão reurbanizadas para servir como áreas de lazer.

A prefeitura justificou o atraso no cronograma das intervenções alegando que os projetos sofreram modificações em relação ao que foi concebido. O plano original, por exemplo, previa a construção de um piscinão de grande porte na Avenida Maxwell, no estacionamento de um supermercado, mas foi reavaliado devido aos custos de indenizações. A opção foi construir dois reservatórios menores, mas as obras nem começaram: os processos de desapropriação dos terrenos para a implantação de piscinões na Rua Heitor Beltrão (70 milhões) e no Alto Grajaú (50 milhões de litros) ainda não terminaram. Prefeitura e proprietários ainda discutem os valores das indenizações na Justiça do Rio .

Apesar do atraso, a conclusão do primeiro reservatório é recebida com esperança por comerciantes da Praça da Bandeira. Mas, no bairro, ainda há desconfiança quanto à eficácia do primeiro piscinão.

— O fato de o primeiro reservatório ficar pronto antes do verão sinaliza que estamos mesmo diante de uma solução. Mas não é demais lembrar que o volume das enchentes no bairro sempre surpreende — diz Mariana Rezende, proprietária do Bar da Frente (Rua Barão de Iguatemi)

Até a Copa, mais dois piscinões para 75 milhões de litros (Praça Niterói) e 45 milhões de litros (Praça Varnhagen) serão concluídos. Na mesma época, termina a implantação de um desvio de 2,4 quilômetros do leito do Rio Joana, que será ligado a um complexo de túneis que deságua na Baía de Guanabara. A implantação do projeto custará R$ 292 milhões em recursos da prefeitura e da União.

Origem: O Globo, 05/10/2013

Hotel Glória, de Eike, só ficará pronto depois da Copa de 2014

O primeiro cinco estrelas do Brasil ficará de fora do maior evento esportivo mundial após problemas de caixa com as empresas do grupo EBX

Primeiro cinco estrelas do Brasil, o Hotel Glória ficará de fora da Copa do Mundo de 2014. O prospecto enviado a potenciais investidores pela companhia suíça Acron – que negocia a compra do hotel com a REX, braço imobiliário do grupo EBX – prevê a conclusão das obras apenas no quarto trimestre de 2015.

O material publicitário indica a rede Four Seasons como o provável operador do Glória. O contrato de gestão será de, no mínimo, 20 anos. À frente de hotéis e resorts de luxo no mundo todo, o grupo ainda não está no Brasil.

Leia mais: Vida pós-calote: a nova rotina do ex-bilionário Eike Batista

Para seduzir investidores internacionais e selar o acordo definitivo com Eike Batista, a Acron promete colocar o Glória Palace Hotel no “Top 10” dos hotéis de luxo do mundo. A tradição do hotel, famoso por receber 19 presidentes ao longo de oito décadas – da abertura, em 1922, ao ano 2000, quando fechou – é mencionada pela Acron.

A companhia suíça destaca ainda que o hotel fica a poucos metros do mar, perto do aeroporto Santos Dumont, do centro da cidade e da Marina da Glória, que receberá competições dos Jogos Olímpicos de 2016.

A Acron pretende formar um fundo de investidores que será remunerado de acordo com a receita de ocupação. O pagamento da primeira parcela, de R$ 250 milhões para adesão ao negócio, está previsto para o dia 24. Outros R$ 250 milhões seriam aportados até novembro de 2015.

Os R$ 500 milhões do negócio incluem o preço do prédio (R$ 220 milhões) e os R$ 350 milhões da obra. O hotel foi comprado por Eike em 2008, ao preço de R$ 80 milhões. O grupo de investidores representado pela Acron também se candidataria a assumir o contrato de financiamento com o BNDES, que aprovou o empréstimo de R$ 190,6 milhões, dentro do programa de incentivo a investimentos à rede hoteleira para a Copa de 2014.

Até agora houve apenas liberação de parte dos recursos, de R$ 50 milhões, em novembro de 2012. Com a reforma do hotel praticamente parada, o financiamento segue também em suspenso no banco.

Origem: O Estado de S. Paulo, 5/10/2013

Opinião: “Acesso ao porto também merece plano viário”

Opinião

Acesso ao porto também merece plano viário

O programa de revitalização da zona portuária do Rio, batizado de Porto Maravilha, vai se tornando cada vez mais visível para a população à medida que as obras avançam e os primeiros trechos de novos eixos viários começam a ficar prontos. Mas, na parte interna do porto e em áreas vizinhas, de circulação restrita, também estão em andamento investimentos relevantes que aumentarão consideravelmente a capacidade de movimentação de cargas e a contribuição econômica da atividade portuária para a cidade e o estado.

O porto do Rio é hoje um dos mais importantes na exportação e importação de veículos. Mais de 50% de seu movimento se destinam a outros estados, especialmente Minas Gerais. Os dois terminais de contêineres e outros tipos de carga geral estão sendo ampliados para receber navios gigantes. Equipamentos modernos se somarão aos já existentes, com o objetivo de agilizar embarques, desembarques e desembaraços.

Por ser o local de águas abrigadas mais próximo da região que concentra os principais blocos de exploração e produção de petróleo na Bacia de Santos, o porto do Rio foi escolhido para ser o maior terminal de atracação de embarcações de apoio às plataformas e sondas de perfuração. Já há um movimento crescente dessas embarcações, mesmo sem terem sido realizadas as obras de ampliação do cais previstas.

Vizinhos ao porto do Rio, estão em plena atividade estaleiros (somente o Inhaúma, que converte, para a Petrobras cascos de petroleiros que servirão de base para futuras plataformas, empregará diretamente mais de cinco mil pessoas) e terminais privados de apoio à indústria do petróleo. O acesso a essa área mais movimentada, feito por portões no Caju, não foi contemplado pelo programa Porto Maravilha, uma parceria público-privada da prefeitura, que conta com boa vontade do governo federal e do estadual, o que é fundamental, porque muitos dos terrenos cedidos ou negociados para a revitalização são de propriedade da União.

A companhia (Docas do Rio de Janeiro) que tem a responsabilidade de zelar pelo patrimônio do porto também é federal. Para que o acesso ao porto, hoje já confuso, não se torne caótico, com reflexo negativo sobre a parte que está sendo revitalizada urbanisticamente, é preciso que seja posto em prática o plano que redefine o sistema viário da região do Caju: a abertura de ruas e construção de alças de viadutos para facilitar a chegada e a saída de caminhões, e mesmo de linhas regulares de ônibus. Isso envolve uma concessão federal (Ponte Rio-Niterói) e o equacionamento financeiro das obras.

Pela importância econômica do porto, trata-se de uma questão que merece prioridade. Quanto mais o tempo passa, mais difícil será a solução.

Origem: O Globo - 05/10/2013

Beleza e técnica

No isolamento, robustez e introspecção

A abertura ao público, este ano, da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, nove anos depois do início das obras, encerra a complicada história da execução desse complexo cultural, marcada por paralisações, retomadas, inaugurações e muita polêmica. Erguido no cruzamento dos dois grandes eixos traçados por Lucio Costa para a zona oeste carioca, na Barra da Tijuca, o projeto do francês Christian de Portzamparc homenageia o modernismo brasileiro, utilizando elementos consagrados por nossa arquitetura. Referência arquitetônica importante na cidade, e também na carreira do arquiteto, o edifício é considerado uma das obras públicas mais relevantes da engenharia brasileira nas últimas décadas.

Membro de uma geração de profissionais europeus formada durante OS anos dourados da arquitetura brasileira, Christian de Portzarnparc conhece e admira, desde muito jovem, as obras dos mestres Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Affonso Reidy e outras grandes figuras do modernismo no Brasil. Em seu primeiro projeto no pais, incorpora elementos consagrados por nossos profissionais – grandes vãos livres, pilotis e rampas esculturais, uso extensivo e exuberante do concreto e valorização da cultura da sombra -, e os conjuga à beleza e à técnica do seu próprio trabalho. Segundo Portzamparc, sua intenção era trabalhar a partir do lugar, da paisagem, do clima, da dinâmica do programa, da necessidade de isolamento acústico, da técnica estrutural adaptada ao Brasil.

Ao contrário da situação encontrada em outros locais onde tem atuado, cujas áreas de implantação, sempre limitadas, fazem com que a arquitetura fique submetida a regulamentos muito restritivos, o projeto da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, pedia amplitude: o sítio, com 9 mil metros quadrados, está localizado em meio a uma planície urbana de i quilômetros de extensão. A arquitetura seria um objeto isolado e precisava se destacar como unia referência forte e audaciosa. E o tema da música daria inteira liberdade ao arquiteto para trabalhar acústica e desenho em formas livres.

No contexto da obra de Portzamparc, a Cidade das Artes surge como urna síntese de suas reflexões sobre a relação entre cheios e vazios e a sobrelevação de estruturas. Em alguns de seus trabalhos anteriores, o programa aparece separado e abrigado em diferentes blocos de formatos irregulares, permeados por átrios públicos que se interpenetram no interior de um grande volume regular. Com variações, o conceito foi utilizado na Cité de La Musique, em Paris, e também na Cidade das Artes. Enquanto nos climas frios o volume recebe fechamentos de vidro ou concreto, no Rio ele foi elevado, para se destacar ao longe, e aberto lateralmente, expondo o movimento dos blocos irregulares e permitindo vistas para o mar, lagos e montanhas ar) longe.

O conceito que norteou o projeto foi, então, o de uma ampla varanda elevada – apartada do solo, dos carros,e aberta para a paisagem -, paradigma da arquitetura brasileira dos anos 1950. Contido entre dois planos horizontais (duas lajes de 90 x 200 metros, a do piso a dez metros do solo e a da cobertura a 30), o imenso belvedere abriga os vários itens do programa em cinco blocos de formatos irregulares, separados por vazios que propiciam sombras e passagem de ar e luz. Para o isolamento acústico deles, foram criadas grandes cascas de concreto protendido, as velas cilíndricas que sobem do solo, recoberto por jardim de manguezais e espelhos d’água projetados por Fernando Chacel.

A ENCOMENDA

Inicialmente batizado de Cidade da Música, o projeto foi encomendado a Portzaniparc em 2002 pelo então prefeito do Rio, César Maia, para tornar-se a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Portzamparc é reconhecido internacionalmente corno expert em salas de música, com mais de 30 propostas já executadas cm cidades da Europa e da América do Norte. O extenso programa resultou da lista de necessidades apresentada pelo maestro e por músicos da OSB, e também pelo prefeito, que queria unia sala para concertos sinfônicos transformável em teatro de ópera. Além do grande auditório, com capacidade para 1,8 mil pessoas (música) ou 1,4 mil (ópera), foram projetarias salas pal outros gêneros musicais (música de câmara, com 500 lugares, música popular/jazz/eletroacústica, com 800), todas com padrão de audição internacional. Camarins, 13 ambientes de ensaio, 13 salas de aulas de música e de dança, midiateca, depósito de instrumentos, escritórios cia administração da orquestra, três cinemas de arte, restaurante, café, lojas, foyer musical, jardins, espelhos d’água e estacionamentos também foram demandados. Em 2003, o prefeito aprovou o projeto apresentado, e a construção teve início em 2004. Com os trabalhos já avançados, a obra foi interrompida no ano seguinte, quando a prefeitura direcionou seus esforços para a infraestrutura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, de 2007. Ela só foi retomada no início de 2008, e já no final do ano, antes de encerrar seu mandato, Maia inaugurou o edifício ainda inacabado, com uma apresentação da OSB na grande sala, ocasião em que se comprovou a alta qualidade do som no ambiente. O novo prefeito, Eduardo Paes, assumiu cm 2009 e anunciou a paralisação das obras até que se auditassem os gastos feitos. Na época, a mídia carioca iniciou uma campanha contra o projeto, discutindo sua grandiosidade e os custos da execução, considerados exorbitantes para o município. Uma CPI ouviu representantes de empreiteiras, funcionários envolvidos na obra e até o arquiteto, mas não chegou a nenhuma conclusão. Em 2010, os trabalhos foram reiniciados e concluídos no final de 2012. Rebatizado de Cidade das Artes, o complexo fui então reinaugurado, mas seu funcionamento só ocorreu este ano. De acordo com a Fundação Cidade das Artes, na última etapa da obra alguns espaços foram readequados e o programa adaptado para contemplar outras expressões artísticas, como exposições de artes plásticas, palestras, lançamentos e eventos literários. A OSB, no entanto, não assumiu sua sede até o momento.

A TÉCNICA

A estrutura tem um papel fundamental da Cidade das Artes, pois são as duas grandes lajes e paredes de concreto aparente que definem suas formas esculturais, leves e ao mesmo tempo monumentais. A dimensão excepcional do projeto — 90 mil metros quadrados de área construída, sendo 68 mil do edifício – exigia grande número de pilares de sustentação. De início, as dezenas de apoios sugeridos pela equipe da França não agradaram Portzamparc, que desejava um número reduzido. Durante um voo para Berlim, refletindo sobre o trabalho estático das cascas de proteção acústica e suas ligações com os pilares abaixo, o arquiteto chegou à conclusão de que esses casulos portantes, encurvados e cilíndricos, poderiam partir do próprio solo e subir apoiando tudo, não apenas duas lajes. E para que estas resultassem esbeltas, utilizaria o concreto protendido. Definida a lógica estrutural, o escritório pôde preparar a maquete definitiva. Para enfrentar o desafio apresentado por sua arquitetura, Portzamparc preferiu que o cálculo estrutural fosse feito no Brasil, cuja experiência com o concreto protendido é reconhecida e respeitada em todo o mundo. A equipe escolhida para esse trabalho, de Carlos Fragelli e Ulysses Cordeiro, da Beton Engenharia, com a consultoria de Bruno Contarini, foi fundamental para a viabilização da estrutura complexa da Cidade das Artes. Logo depois de aprovada a proposta, sem modificações importantes, os calculistas passaram a trabalhar diretamente com o arquiteto e sua equipe, analisando o projeto arquitetônico, pré-dimensionando a estrutura, negociando acréscimos de apoios, discutindo alternativas e verificando cargas em diversas posições até chegar à solução mais adequada. “Os desafios eram monumentais, não só por conta dos vãos, de 30 a 35 metros, mas também por causa do peso e da robustez das lajes do belvedere [1,5 metro de espessura], a dez metros de altura, e da cobertura [1,7 metro de espessura], a 30 metros do solo, e ainda por alguns pilares inclinados. É uni prédio de grande porte, sobre apoios leves e suaves – apesar da aparência de leveza conferida por sua forma, as paredes são muito pesadas por conta das necessidades acústicas Sem a técnica da protensão e os recursos de projeto proporcionados pela informática, o edifício seria algo bem diferente, e dificilmente poderíamos materializar as ideias de leveza e monumentalidade que Portzaniparc desejava”, testemunha Contarini.

O edifício é composto por estruturas principais, a quatro lajes que definem a obra (cio subsolo, do teto do subsolo, da esplanada e cia cobertura); elementos estruturais, englobando as paredes e pilares que suportam as lajes; e estruturas secundárias, que são lajes, vigas, escadas, paredes e pilares tios cinco blocos que abrigam o programa e trabalham no contraventamento e no enrijecimento da estrutura como um todo. As lajes do belvedere e da cobertura receberam estruturas em grelha; as do piso e da cobertura do subsolo são maciças, com 25 centímetros de espessura; e nos níveis intermediários foram lançadas lajes e vigas convencionais de concreto armado e concreto protendido.

O estudo preliminar e o anteprojeto de arquitetura foram concebidos em Paris pelo Atelier Christian de Portzamparc (ACDP), enquanto os projetos básico e executivo foram desenvolvidos no Rio de Janeiro, pelo escritório L. A. Rangel Arquitetos, sob a ativa supervisão dos arquitetos Nanda Eskes, Cióvis Cunha e Anna Paula Pontes, que tinham atuado no ateliê de Paris e formaram, no Rio, a filial ACDP do Brasil Projetos. O gerenciamento da obra ficou a cargo da Engineering, e para a execução formou-se um consórcio com as construtoras Andrade Gutierrez, Carioca-Christian Nielsen, Consórcio Cidade da Música e Telem. Procurado para opinar sobre as mudanças efetuadas no programa e a qualidade do acabamento final, etapas das quais não participou, Portzampare não pôde ser contatado. Segundo o escritório de Paris, ele estava em visita a projetos no Marrocos, nos Estados Unidos e na China. Em pronunciamentos anteriores, no entanto, ele se mostrara satisfeito com a finalização da obra e com o empenho da direção da Rioarte, responsável pela administração da Cidade das Artes. (Por Éride Moura)

Origem: Revista Projeto Design, Outubro de 2013

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