Notícias

Opinião: “Acesso ao porto também merece plano viário”

Opinião

Acesso ao porto também merece plano viário

O programa de revitalização da zona portuária do Rio, batizado de Porto Maravilha, vai se tornando cada vez mais visível para a população à medida que as obras avançam e os primeiros trechos de novos eixos viários começam a ficar prontos. Mas, na parte interna do porto e em áreas vizinhas, de circulação restrita, também estão em andamento investimentos relevantes que aumentarão consideravelmente a capacidade de movimentação de cargas e a contribuição econômica da atividade portuária para a cidade e o estado.

O porto do Rio é hoje um dos mais importantes na exportação e importação de veículos. Mais de 50% de seu movimento se destinam a outros estados, especialmente Minas Gerais. Os dois terminais de contêineres e outros tipos de carga geral estão sendo ampliados para receber navios gigantes. Equipamentos modernos se somarão aos já existentes, com o objetivo de agilizar embarques, desembarques e desembaraços.

Por ser o local de águas abrigadas mais próximo da região que concentra os principais blocos de exploração e produção de petróleo na Bacia de Santos, o porto do Rio foi escolhido para ser o maior terminal de atracação de embarcações de apoio às plataformas e sondas de perfuração. Já há um movimento crescente dessas embarcações, mesmo sem terem sido realizadas as obras de ampliação do cais previstas.

Vizinhos ao porto do Rio, estão em plena atividade estaleiros (somente o Inhaúma, que converte, para a Petrobras cascos de petroleiros que servirão de base para futuras plataformas, empregará diretamente mais de cinco mil pessoas) e terminais privados de apoio à indústria do petróleo. O acesso a essa área mais movimentada, feito por portões no Caju, não foi contemplado pelo programa Porto Maravilha, uma parceria público-privada da prefeitura, que conta com boa vontade do governo federal e do estadual, o que é fundamental, porque muitos dos terrenos cedidos ou negociados para a revitalização são de propriedade da União.

A companhia (Docas do Rio de Janeiro) que tem a responsabilidade de zelar pelo patrimônio do porto também é federal. Para que o acesso ao porto, hoje já confuso, não se torne caótico, com reflexo negativo sobre a parte que está sendo revitalizada urbanisticamente, é preciso que seja posto em prática o plano que redefine o sistema viário da região do Caju: a abertura de ruas e construção de alças de viadutos para facilitar a chegada e a saída de caminhões, e mesmo de linhas regulares de ônibus. Isso envolve uma concessão federal (Ponte Rio-Niterói) e o equacionamento financeiro das obras.

Pela importância econômica do porto, trata-se de uma questão que merece prioridade. Quanto mais o tempo passa, mais difícil será a solução.

Origem: O Globo - 05/10/2013

Prêmio elege os arranha-céus mais bonitos do ano; conheça

Lista da CNN mostra os escolhidos do Emporius Skycraper Award, selecionados por um grupo de arquitetos internacionais

Especializada em imóveis e construções, a empresa alemã Emporius prepara, ano após ano, um ranking com os novos arranha-céus mais bonitos do mundo. Confira nesta reportagem da CNN os escolhidos do Emporius Skycraper Award, selecionados por um grupo de arquitetos internacionais:

1. Absolute World Towers , Canadá

Apelidado de “Marilyn Monroe” por conta de suas curvas, o complexo Absolute World Towers tem duas torres de 50 e 56 andares que dominam o panorama da cidade de Mississagua, na região metropolitana de Toronto. Inauguradas em 2012, as torres têm uma arquitetura futurista e totalmente única, atingindo 179 metros para o maior dos dois prédios.


2. Torres Al Bahar , Emirados Árabes Unidos

Situadas em Abu Dhabi, as Torres Al Bahar contam com uma fachada translúcida que usa painéis fotovoltaicos para gerar energia para o prédio. A arquitetura também permite reduzir a temperatura interna, economizando no uso de ar condicionado numa região muito calorosa e fazendo deste moderno arranha-céu um exemplo de desenvolvimento sustentável.


3. Burj Qatar, Qatar

Inspirado na Torre Agbar de Barcelona, também projetada pelo arquiteto Jean Nouvel, o arranha-céu Burj Qatar tem seu topo coroado por um domo que é, na verdade, um para-raios. Com 238 metros e 46 andares, o prédio se transformou num dos mais belos de Qatar.


4. The Bow, Canadá

Com 236 metros de altura, o arranha-céu The Bow é o terceiro maior de todo o Canadá. Situado na cidade de Calgary, a poucos passos do rio Bow, que lhe rendeu o nome, o edifício tem um uso inovador de aço e vidro, fazendo dele 30% mais leve do que outros arranha-céus do mesmo tamanho.


5. House on Mosfilmovskaya 1, Rússia

As colunas expostas de concreto chamam a atenção dos passantes, assim como o átrio que une o House on Mosfilmovskaya 1 à torre vizinha. Com 213 metros, o edifício é um dos maiores e mais extravagantes da Rússia.


6. Pearl River Tower, China

Usando energia eólica e solar para alimentar boa parte de suas necessidades, o Pearl River Tower é um dos arranha-céus mais eficientes do mundo no uso de energia. Com 310 metros de altura, o prédio ocupa um lugar privilegiado no panorama da cidade chinesa de Guangzhou.


7. Varyap Meridian, Turquia

O Varyap Meridien é um complexo de 1.500 apartamentos, hotel cinco estrelas, escritórios e centro de conferências no bairro de Atasehir, em Istambul. As cores da fachada vão de marrom terracota na base até azul no topo, simbolizando a mudança da terra ao céu.


8. UniCredit Tower, Itália

Sede de um importante banco, a UniCredit Tower é o maior arranha-céu da Itália, com 218 metros. A iluminação colorida da fachada ajuda o prédio a ser visto a mais de 10 km de distância sobre as construções baixas de Milão.


9. Dumankaya IKON, Turquia

O arranha-céu Dumankaya IKON consiste em três torres elípticas futuristas interconectadas umas às outras. O moderno complexo abriga mais de 1 mil apartamentos, além de escritórios e um shopping-center no térreo.


10. Renaissance Barcelona Fira Hotel, Espanha

O Renaissance Barcelona Fira Hotel tem uma linda fachada branca com janelas em forma de folhas de coqueiro. No interior do luxuoso hotel, um jardim vertical retoma a temática natural com mais de 300 palmeiras.

 

11. Zhengzhou Greenland Plaza, China

Maior prédio da cidade de Zhengzhou, no centro da China, o Zhengzhou Greenland Plaza combina escritórios com um hotel de luxo com 435 quartos. A fachada de alumínio fornece proteção do sol, permitindo ao mesmo tempo a entrada de luz natural e a economia de energia elétrica.

Beleza e técnica

No isolamento, robustez e introspecção

A abertura ao público, este ano, da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, nove anos depois do início das obras, encerra a complicada história da execução desse complexo cultural, marcada por paralisações, retomadas, inaugurações e muita polêmica. Erguido no cruzamento dos dois grandes eixos traçados por Lucio Costa para a zona oeste carioca, na Barra da Tijuca, o projeto do francês Christian de Portzamparc homenageia o modernismo brasileiro, utilizando elementos consagrados por nossa arquitetura. Referência arquitetônica importante na cidade, e também na carreira do arquiteto, o edifício é considerado uma das obras públicas mais relevantes da engenharia brasileira nas últimas décadas.

Membro de uma geração de profissionais europeus formada durante OS anos dourados da arquitetura brasileira, Christian de Portzarnparc conhece e admira, desde muito jovem, as obras dos mestres Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Affonso Reidy e outras grandes figuras do modernismo no Brasil. Em seu primeiro projeto no pais, incorpora elementos consagrados por nossos profissionais – grandes vãos livres, pilotis e rampas esculturais, uso extensivo e exuberante do concreto e valorização da cultura da sombra -, e os conjuga à beleza e à técnica do seu próprio trabalho. Segundo Portzamparc, sua intenção era trabalhar a partir do lugar, da paisagem, do clima, da dinâmica do programa, da necessidade de isolamento acústico, da técnica estrutural adaptada ao Brasil.

Ao contrário da situação encontrada em outros locais onde tem atuado, cujas áreas de implantação, sempre limitadas, fazem com que a arquitetura fique submetida a regulamentos muito restritivos, o projeto da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, pedia amplitude: o sítio, com 9 mil metros quadrados, está localizado em meio a uma planície urbana de i quilômetros de extensão. A arquitetura seria um objeto isolado e precisava se destacar como unia referência forte e audaciosa. E o tema da música daria inteira liberdade ao arquiteto para trabalhar acústica e desenho em formas livres.

No contexto da obra de Portzamparc, a Cidade das Artes surge como urna síntese de suas reflexões sobre a relação entre cheios e vazios e a sobrelevação de estruturas. Em alguns de seus trabalhos anteriores, o programa aparece separado e abrigado em diferentes blocos de formatos irregulares, permeados por átrios públicos que se interpenetram no interior de um grande volume regular. Com variações, o conceito foi utilizado na Cité de La Musique, em Paris, e também na Cidade das Artes. Enquanto nos climas frios o volume recebe fechamentos de vidro ou concreto, no Rio ele foi elevado, para se destacar ao longe, e aberto lateralmente, expondo o movimento dos blocos irregulares e permitindo vistas para o mar, lagos e montanhas ar) longe.

O conceito que norteou o projeto foi, então, o de uma ampla varanda elevada – apartada do solo, dos carros,e aberta para a paisagem -, paradigma da arquitetura brasileira dos anos 1950. Contido entre dois planos horizontais (duas lajes de 90 x 200 metros, a do piso a dez metros do solo e a da cobertura a 30), o imenso belvedere abriga os vários itens do programa em cinco blocos de formatos irregulares, separados por vazios que propiciam sombras e passagem de ar e luz. Para o isolamento acústico deles, foram criadas grandes cascas de concreto protendido, as velas cilíndricas que sobem do solo, recoberto por jardim de manguezais e espelhos d’água projetados por Fernando Chacel.

A ENCOMENDA

Inicialmente batizado de Cidade da Música, o projeto foi encomendado a Portzaniparc em 2002 pelo então prefeito do Rio, César Maia, para tornar-se a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Portzamparc é reconhecido internacionalmente corno expert em salas de música, com mais de 30 propostas já executadas cm cidades da Europa e da América do Norte. O extenso programa resultou da lista de necessidades apresentada pelo maestro e por músicos da OSB, e também pelo prefeito, que queria unia sala para concertos sinfônicos transformável em teatro de ópera. Além do grande auditório, com capacidade para 1,8 mil pessoas (música) ou 1,4 mil (ópera), foram projetarias salas pal outros gêneros musicais (música de câmara, com 500 lugares, música popular/jazz/eletroacústica, com 800), todas com padrão de audição internacional. Camarins, 13 ambientes de ensaio, 13 salas de aulas de música e de dança, midiateca, depósito de instrumentos, escritórios cia administração da orquestra, três cinemas de arte, restaurante, café, lojas, foyer musical, jardins, espelhos d’água e estacionamentos também foram demandados. Em 2003, o prefeito aprovou o projeto apresentado, e a construção teve início em 2004. Com os trabalhos já avançados, a obra foi interrompida no ano seguinte, quando a prefeitura direcionou seus esforços para a infraestrutura dos Jogos Pan-Americanos do Rio, de 2007. Ela só foi retomada no início de 2008, e já no final do ano, antes de encerrar seu mandato, Maia inaugurou o edifício ainda inacabado, com uma apresentação da OSB na grande sala, ocasião em que se comprovou a alta qualidade do som no ambiente. O novo prefeito, Eduardo Paes, assumiu cm 2009 e anunciou a paralisação das obras até que se auditassem os gastos feitos. Na época, a mídia carioca iniciou uma campanha contra o projeto, discutindo sua grandiosidade e os custos da execução, considerados exorbitantes para o município. Uma CPI ouviu representantes de empreiteiras, funcionários envolvidos na obra e até o arquiteto, mas não chegou a nenhuma conclusão. Em 2010, os trabalhos foram reiniciados e concluídos no final de 2012. Rebatizado de Cidade das Artes, o complexo fui então reinaugurado, mas seu funcionamento só ocorreu este ano. De acordo com a Fundação Cidade das Artes, na última etapa da obra alguns espaços foram readequados e o programa adaptado para contemplar outras expressões artísticas, como exposições de artes plásticas, palestras, lançamentos e eventos literários. A OSB, no entanto, não assumiu sua sede até o momento.

A TÉCNICA

A estrutura tem um papel fundamental da Cidade das Artes, pois são as duas grandes lajes e paredes de concreto aparente que definem suas formas esculturais, leves e ao mesmo tempo monumentais. A dimensão excepcional do projeto — 90 mil metros quadrados de área construída, sendo 68 mil do edifício – exigia grande número de pilares de sustentação. De início, as dezenas de apoios sugeridos pela equipe da França não agradaram Portzamparc, que desejava um número reduzido. Durante um voo para Berlim, refletindo sobre o trabalho estático das cascas de proteção acústica e suas ligações com os pilares abaixo, o arquiteto chegou à conclusão de que esses casulos portantes, encurvados e cilíndricos, poderiam partir do próprio solo e subir apoiando tudo, não apenas duas lajes. E para que estas resultassem esbeltas, utilizaria o concreto protendido. Definida a lógica estrutural, o escritório pôde preparar a maquete definitiva. Para enfrentar o desafio apresentado por sua arquitetura, Portzamparc preferiu que o cálculo estrutural fosse feito no Brasil, cuja experiência com o concreto protendido é reconhecida e respeitada em todo o mundo. A equipe escolhida para esse trabalho, de Carlos Fragelli e Ulysses Cordeiro, da Beton Engenharia, com a consultoria de Bruno Contarini, foi fundamental para a viabilização da estrutura complexa da Cidade das Artes. Logo depois de aprovada a proposta, sem modificações importantes, os calculistas passaram a trabalhar diretamente com o arquiteto e sua equipe, analisando o projeto arquitetônico, pré-dimensionando a estrutura, negociando acréscimos de apoios, discutindo alternativas e verificando cargas em diversas posições até chegar à solução mais adequada. “Os desafios eram monumentais, não só por conta dos vãos, de 30 a 35 metros, mas também por causa do peso e da robustez das lajes do belvedere [1,5 metro de espessura], a dez metros de altura, e da cobertura [1,7 metro de espessura], a 30 metros do solo, e ainda por alguns pilares inclinados. É uni prédio de grande porte, sobre apoios leves e suaves – apesar da aparência de leveza conferida por sua forma, as paredes são muito pesadas por conta das necessidades acústicas Sem a técnica da protensão e os recursos de projeto proporcionados pela informática, o edifício seria algo bem diferente, e dificilmente poderíamos materializar as ideias de leveza e monumentalidade que Portzaniparc desejava”, testemunha Contarini.

O edifício é composto por estruturas principais, a quatro lajes que definem a obra (cio subsolo, do teto do subsolo, da esplanada e cia cobertura); elementos estruturais, englobando as paredes e pilares que suportam as lajes; e estruturas secundárias, que são lajes, vigas, escadas, paredes e pilares tios cinco blocos que abrigam o programa e trabalham no contraventamento e no enrijecimento da estrutura como um todo. As lajes do belvedere e da cobertura receberam estruturas em grelha; as do piso e da cobertura do subsolo são maciças, com 25 centímetros de espessura; e nos níveis intermediários foram lançadas lajes e vigas convencionais de concreto armado e concreto protendido.

O estudo preliminar e o anteprojeto de arquitetura foram concebidos em Paris pelo Atelier Christian de Portzamparc (ACDP), enquanto os projetos básico e executivo foram desenvolvidos no Rio de Janeiro, pelo escritório L. A. Rangel Arquitetos, sob a ativa supervisão dos arquitetos Nanda Eskes, Cióvis Cunha e Anna Paula Pontes, que tinham atuado no ateliê de Paris e formaram, no Rio, a filial ACDP do Brasil Projetos. O gerenciamento da obra ficou a cargo da Engineering, e para a execução formou-se um consórcio com as construtoras Andrade Gutierrez, Carioca-Christian Nielsen, Consórcio Cidade da Música e Telem. Procurado para opinar sobre as mudanças efetuadas no programa e a qualidade do acabamento final, etapas das quais não participou, Portzampare não pôde ser contatado. Segundo o escritório de Paris, ele estava em visita a projetos no Marrocos, nos Estados Unidos e na China. Em pronunciamentos anteriores, no entanto, ele se mostrara satisfeito com a finalização da obra e com o empenho da direção da Rioarte, responsável pela administração da Cidade das Artes. (Por Éride Moura)

Origem: Revista Projeto Design, Outubro de 2013

Rio: projetos do Porto Maravilha tentam repetir modelos bem-sucedidos

Tom Cardoso (espeiclal), Valor Econômico

 

Há um consenso entre os especialistas de que o Porto Maravilha, programa de revitalização da zona portuária do Rio, reúne todas as condições estruturais e econômicas, além de tempo, para repetir os modelos de sucesso de projetos similares pelo mundo – como, por exemplo, o Port Vell, em Barcelona, que, assim como o Rio, também se beneficiou do fato de ser a sede dos Jogos Olímpicos (em 1992) para dar impulso às obras.

Os Jogos Olímpicos estão marcados para 2016 e o governo do Rio espera até lá já começar a dar uma cara para o Porto Maravilha, entregando, em parceria com a iniciativa privada, as primeiras torres de escritórios corporativos. Basta saber que modelo de revitalização será esse. Se ele será parecido com a maioria dos projetos de revitalização portuária dos anos 80 e 90 – com exceção de Barcelona – em que a prioridade era transformar as respectivas regiões recuperadas em grandes parques turísticos, com foco no mercado corporativo, ou se ele seguirá os modelos mais recentes, como o caso do Mission Bay, o novo bairro da região portuária de São Francisco, na Califórnia (EUA), que tem, como princípio básico, ocupar a região com moradias e universidades – e não apenas durante uma parte do dia -, estabelecendo, portanto, um elo efetivo entre a região e o resto da cidade.

Para o arquiteto e urbanista Carlos Leite, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, os projetos anunciados no Porto Maravilha já dão uma ideia do que está por vir. Para Leite, o ritmo em que são anunciados novos empreendimentos corporativos indica que o projeto de revitalização da zona portuária do Rio corre o risco de repetir antigos erros comuns em projetos com a mesma características, que permitiram que a iniciativa privada determinasse o ritmo de ocupação.

“Sim, o Rio tem uma enorme carência de escritórios corporativos de boa qualidade e, além disso, o retorno nesse tipo de investimento costuma ser mais alto do que o setor de moradia. Mas isso não significa que temos que transformar o Porto Maravilha numa área com um monte de prédios de escritórios, cercados de alguns museus e outras atrações turísticas. É muito pouco diante do potencial do projeto, que pode ter, por sua concepção e espaço, múltiplos enfoques”, afirma Leite.

O professor do Mackenzie cita o exemplo do Puerto Madero, em Buenos Aires, considerado um projeto de revitalização portuária bem-sucedido, mas, segundo ele, somente do ponto de vista do mercado. “Aquela região virou o metro quadrado mais valorizado da Argentina, tem uma série de intervenções interessantes por lá, como a Puente de La Mujer (Ponte das Mulheres), projetada pelo Santiago Calatrava, o mesmo arquiteto responsável pelo Museu do Amanhã, mas não houve a preocupação de levar gente para morar lá”, afirma Leite. “O Porto Maravilha tem, por suas características, pela infraestrutura que já possui na região, obrigação de ser mais abrangente, de oferecer, principalmente, uma ocupação urbana mais variada e democrática.”

Doutor em planejamento de transporte e logística e coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende também afirma que o Porto Maravilha perde uma oportunidade histórica de estabelecer uma integração inédita entre o centro do Rio e o resto da cidade caso o programa fique restrito apenas ao turismo e ao mercado corporativo.

Para ele, a vocação turística deve ser mesmo a prioridade. “O Rio é como Hamburgo e Barcelona, tem um apelo turístico inquestionável, e o desenvolvimento de sua zona portuária fará com que a cidade entre, enfim, na rota dos grandes navios”, afirma Resende. “Mas, ficar apenas restrito a isso é um desperdício, já que o Rio é muito mais do que o seu centro da cidade. Quando você chega a Barcelona, você consegue visitar, de trem, a Europa inteira”, diz Resende.

Autor do livro Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes (Editora Brookman, 2012), Carlos Leite dedica um capítulo inteiro da obra para falar do projeto de revitalização do bairro portuário Mission Bay, em São Francisco, Califórnia (EUA), iniciado há 13 anos, e que, para ele, é o que mais se aproxima de um modelo sustentável e moderno de revitalização urbana.

Ali, explica Leite, “a grande mola propulsora de regeneração urbana e reestruturação produtiva é o centro de pesquisa em biotecnologia da Universidade da Califórnia, com 170 mil m² de laboratórios e centros de pesquisa”. “Essa ocupação inteligente, criativa do espaço, está sendo discutida ali mesmo e é o que tem determinado o sucesso do Mission Bay como exemplo de planejamento urbano a ser seguido”. No caso do Porto Maravilha, insiste Leite, o primeiro passo seria a criação de um novo Plano Diretor para a região portuária. “O que está sendo seguido discute todas as questões de forma muito superficial, sem profundidade”, afirma o urbanista.

 

Condomínios querem ser saída para locomoção difícil

Daniel Vasques, Folha de S. Paulo

 

O trânsito intenso e o transporte público cheio em horário de pico viraram argumento de venda para os empreendimentos multiúso que vêm sendo lançados pelas incorporadoras em São Paulo.

O apelo das empresas ao comprador é que ele precisará se deslocar menos pela cidade, já que centros de compras, restaurantes e salas comerciais farão parte do mesmo terreno em que ficam os prédios residenciais.

Em relação a grandes complexos, como o Parque Global (zona sul), a ser lançado neste mês, o Parque da Cidade (também na zona sul) e o bairro planejado Jardim das Perdizes (zona oeste), já lançados, a aposta é que se tornem polos de serviços.

Todos eles ocupam amplos terrenos. A área dos três somada atinge cerca de 550 mil metros quadrados, o equivalente a um terço do parque Ibirapuera.

Já a soma de todas as unidades vendidas nesses três projetos é estimada em R$ 17 bilhões –aproximadamente o PIB (Produto Interno Bruto) do Tocantins em 2010 (dado mais recente).

O público-alvo são compradores de alta renda –o metro quadrado, em geral, varia de R$ 10 mil a R$ 15 mil (ante R$ 7.900 do preço médio da cidade)–, que buscam morar ou investir em áreas valorizadas, próximas a polos corporativos e a importantes vias de acesso, como a marginal Pinheiros.

INVESTIMENTO

A aposta das incorporadoras em complexos multiúso atrai investidores que veem nesses empreendimentos uma forma de conseguir renda com aluguel ou lucro com uma revenda.

Um dos motivos é que, além do apelo de conjugar moradia, trabalho e lazer em um mesmo espaço, os empreendimentos se localizam em bairros que, segundo analistas do mercado, têm perspectiva de valorização do metro quadrado, como Barra Funda (zona oeste) e Chácara Santo Antônio (zona sul).

Essas antigas regiões industriais têm preço acima do valor médio cobrado na cidade, mas ainda é mais barato comprar lá do que em bairros vizinhos, como o Itaim Bibi e Perdizes (zona oeste).

Com a paisagem dessas regiões mudando, os investidores esperam que a diferença de valores em relação aos bairros mais caros diminua.

Embora edifícios multiúso já existissem na cidade, como o Conjunto Nacional, na avenida Paulista, concluído na década de 1950, e o Brascan Century Plaza (zona sul), um interesse mais acentuado por esse tipo de produto é recente, afirma Bruno Vivanco, vice-presidente comercial da imobiliária Abyara Brasil Brokers.

“Caíram os juros e muita gente tomou tombo na Bolsa. Aumentou muito a demanda para o mercado”, diz.

Do lado das construtoras, a abertura de capital de boa parte das empresas, a partir de 2007, propiciou “dinheiro abundante para investimentos”, o que levou a um incremento nos lançamentos imobiliários nas áreas mais nobres da cidade.

Segundo Vivanco, o investidor hoje é o “pequeno poupador”, que passa a investir em apartamentos compactos, pequenas salas comerciais e nos multiúso, para compensar o menor rendimento com aplicações financeiras em razão dos juros mais baixos.

“Uma coisa ajuda a outra. Você lançar uma torre residencial é uma coisa. Lançar com ela uma comercial agrega valor”, afirma João Henrique, diretor de atendimento da imobiliária Lopes.

Página 173 de 175« Primeira...102030...171172173174175